|
A construção das termas da muralha insere-se provavelmente num momento em
que a cidade adquire o seu estatuto municipal, por volta de 77 d.C., transformando-se
em Flavia Conimbriga. Este processo é de vital importância para as transformações
da malha urbana da cidade, o seu novo estatuto quebra o equilíbrio anterior
entre o núcleo indígena e o romano.
As termas da muralha sofreram ao longo da sua existência um percurso complexo.
Com uma implantação urbana marginal (mas localizadas talvez junto ao fórum
municipal) zona marcadamente ocupada por uma classe abastada, foi-lhes conferida
uma certa imponência e houve preocupação artística na ordenação e decoração
interna dos espaços.
O edifício, limitado a Oeste por uma via em cujo lado oposto se situa a Casa de
Cantaber e a Norte por uma outra pela qual desemboca uma série de estabelecimentos
comerciais (couponae ?) adossados à Casa dos esqueletos,
apresenta um esquema sequencial axial do tipo I de Kreencker e ocupa uma área de
25 m por 20 m, ou seja, 500 m2. Além disso, segue um programa construtivo semelhante ao
do fórum flaviano pois algumas placas de mármore que se
conservam in situ correspondem ao mesmo tipo das que
foram utilizadas no fórum.
Espacialmente, as termas da muralha distribuem-se em dois sectores, que
interpretamos como uma zona masculina e uma zona feminina.
Inicialmente deveria existir uma zona de acesso aberta à via da Casa de
Cantaber. Talvez se tratasse de um ambiente rectangular que juntasse as
funções de entrada e apoditério. Este ambiente, destruído pela muralha,
comunicava com o frigidário e talvez com a área externa ocupada pela natatio.
Este frigidário tem uma planta rectangular e seria revestido com placas
de mármore, das quais restam fragmentos junto às paredes Oeste e Norte.
Uma escada a Norte, de três degraus, comunicava com um segundo espaço, também
este não aquecido directamente. Salienta-se que a Este se conservam as marcas
da implantação de uma soleira de uma porta que, possivelmente, permitia
o acesso à zona aquecida das termas masculinas. Por fim esta sala, que nós
interpretamos como frigidário, seria o espaço que divide os acessos às termas
femininas e masculinas. As primeiras são enriquecidas com um outro ambiente
não aquecido, ou talvez aquecido indirectamente pelas condutas do laconicum,
e podemos atribuir-lhe a função de um frigidário aquecido pois não tem estruturas
que justifiquem a sua função de tepidário. Este ambiente dará acesso ao
caldário feminino. O acesso não é muito claro, encontrando-se possivelmente
oculto pela muralha. O caldário é aquecido por uma fornalha que, pela sua
estrutura, teria a dupla função de aquecer o ar e sustentar uma caldeira
de água utilizada num alveus do caldário,
actualmente destruído. A este praefurnium
tinha-se acesso por um estreito corredor que forma, junto à fornalha, um
pequeno espaço de planta quadrangular. O acesso seria feito pelo exterior
das termas, o que é bastante compreensível. Contudo, não temos dados suficientes
sobre o limite Norte das termas. O caldário feminino era constituído por
uma suspensura sustentada por arcos feitos
em tijolo (bipedalis) sobre a qual assentava
um nível de imbrices com a cobertura virada para baixo permitindo
uma melhor circulação do ar junto do pavimento de circulação. Por cima deste
nível de imbrices existe um espesso estrato de opus
signinum, bastante grosseiro mas muito mais resistente, sobre o qual
se aplica um segundo estrato mais fino e polido. Não temos certezas quanto
à cobertura do pavimento do caldário feminino, isto é, não sabemos se este
estrato de opus signinum era o aspecto final
ou se era ainda recoberto com mosaico ou com placas de mármore. Desconhecemos
também se este sector feminino tinha acesso separado do sector masculino.
Se assim for devemos teorizar a existência de uma segunda entrada destruída
pela muralha. Porém os espaços abertos tais como a natatio
e uma pequena palestra, e o laconicum, deveriam
ser comuns a ambos os sexos.
A zona masculina das termas desenvolve-se sequencialmente com um frigidário,
espaço de acesso à zona feminina e masculina; um tepidário, com a zona Oeste
escavada no afloramento e suspensura sustentadas por pequenos pilares
em tijolo onde assentavam os arcos; e finalmente um caldário de planta quadrangular.
A divisão entre estes dois espaços aquecidos nota-se no pavimento inferior
da suspensura, com um bloco de pedra onde se apoiava um arco em tijolo
que estrangulava a passagem inferior do ar quente. Este caldário masculino
era aquecido por duas fornalhas colocadas a Este com muros de suporte no
interior da suspensura, permitindo uma melhor canalização do ar quente.
Uma terceira fornalha foi construída a Sul, com um sistema de suporte de
caldeira, semelhante à existente nas termas femininas, o que proporcionaria
água quente a um alveus situado na parte Este do caldário. Deste elemento
restam alguns traços.
Um outro espaço das termas das muralhas é o laconicum, para o qual se acedia
por uma entrada situada no tepidário masculino. Este ambiente circular,
aquecido por uma fornalha independente com planta em L, apresenta três degraus,
todos eles revestidos com placas de calcário branco. O aquecimento era feito
pela circulação de ar quente na zona envolvente `a estrutura central. Pomos
a hipótese deste ambiente ter abastecimento de água. Existe uma canalização
a ele associada, como também um escoamento lateral do fundo do laconicum,
talvez de limpeza. Por outro lado são visíveis na parede Oeste as marcas
de dois nichos, onde poderia ter estado instalado algum jogo de água e decoração
estatuária.
Outra zona essencial nas termas públicas são as áreas abertas. Nas termas
da muralha detectamos um amplo espaço situado a Sul da estrutura, possivelmente
porticado, associado com a natatio, pelo menos na sua face Oeste, onde são
ainda visíveis a moldura externa da parede que define o limite da área da
natatio.
A área de serviço das termas situa-se toda ela na zona Este do complexo.
Detecta-se uma divisão a Este, com um pequeno tanque que teria acesso pela
zona Este e Norte das termas, correspondendo à via da Casa dos Esqueletos.

|